cartas em branco
cartas para quem?*

Meus caros,

Se vos contasse em detalhe tudo o que se passou no último mês e meio talvez só acreditassem pela personagem principal em causa. Como sabem, desde que cheguei a Maputo pouco ou nada comuniquei com quem tem o devido direito. Serve a presente carta para manifestar o meu empenho e vontade em mudar esta situação. Em poucas palavras (que rápido passam a imensas), a partir de agora quero e vou ser mais assídua na escrita, não só porque não vivo sem como, e principalmente, porque sem vocês nunca teria tomado esta decisão que mudou a minha vida – sem grandes exageros, apenas porque grandes decisões requerem sempre escolhas e consequentes aprendizagens.

Querem saber onde estou agora, neste momento em que vos escrevo? No chão do meu segundo quarto (ou terceiro, se quiserem considerar o do Hostel Base Backpackers aqui de Maputo), mais especificamente sentada na mega esteira aka templo do Yoga, comprada em Xipamanine por 80 meticias (pouco mais de 2 euros) com o meu lindo mac ao colo. Pormenor, estão cerca de 40 graus à sombra/dentro de casa/onde-quer-que-se-esteja e sei lá quanta humidade mas a suficiente para ainda não ter parado de suar desde o douche matinal. Colorindo a descrição, pareço um pinto suado depois de ter andado meia hora desde o Instituto Franco-moçambicano, agradável local onde almoçamos 4 a 5 dias por semana, até casa. Contudo, não posso deixar de aproveitar este momento de paz ao som se Seu Jorge para deitar cá para fora o que tenho na alma. Escolho o formato carta pois é uma forma de expressão que admiro pela sua capacidade em falar directamente nos olhos de quem nos lê, independentemente da distância. Infelizmente, não as poderei enviar com exóticos selos e respectivos carimbos locais para o correio de cada um de voz mas fá-lo-ei via e-mail, sempre que puder.

Assim, e antes de prosseguir a saga destas cartas em branco, agradeço que deixem aqui o vosso e-mail no caso de quererem recebê-las. É isso, este blog não vai ser público mas direcionado a quem vier por bem. Eis que pensei, pensei e pensei e pedi opinião e desta vez não me vou expor como no desta é que é 2. Não pode ser, preciso de liberdade de expressão para viver. A vida é curta demais para dar importância a toda a gente que nos aparece à frente. Por isso há que escolher bem a quem nos devemos dedicar, sem falsos paternalismos ou quaisquer moralismos. Porque o meu objectivo de vida é ser feliz, quero partilhar o melhor de mim com quem gosto. Espero, portanto, que estas modestas palavras façam parte disto.

Até já, a vossa sara

*para quem vier por bem

de maputo para todo o lado

Na terra onde homens e mulheres brancos fumam cigarros palha uns atrás dos outros, a vida leva-se entre dois dedos de conversa, torradas em pão de forma e meias de leite onde tu é que pões o leite. Por vezes, lá há tempo para trabalhar um pouco e pensar um bocadinho mas nunca sem antes respirar fundo e deixar andar o tempo que sobra no alto dos seus jeeps. Esta é exactamente a mesma terra onde os pretos viram a lata para se virarem, apregoam tomadas triplas e tábuas de passar a ferro forradas de capolanas, comem xima e caril de carapau com os dedos sujos de tristeza e as pretas levam lichias e ananases em cima da cabeça, putos mal amarrados às costas e muito pouca esperança nos olhos. Eis Maputo de 2011, eis a terra de que vos vou falar.

Cheguei faz hoje três semanas e só hoje páro aqui para pensar. Aqui é no Nautilus, café coquete cá da zona onde uns entram e outros espreitam pelo vidro a ver se alguma coisa sobra nos pratos ou alguma moeda salta de um bolso mais recheado. Sinhorrra, tenho fome. Eu sei que não tens mas eu tenho mais que tu por isso tenho que te dar qualquer coisa, nem que seja um bom dia.

Efeito retardado este, medo de admitir uma ligeira mas sentida desilusão precoce, aprendizagens sucessivas que não pedem licença para dar ares da sua graça. Bem-vindos a Maputo geração 2.0.